O panorama atual
O Banco Central Europeu determinou uma nova descida das taxas de juro diretoras, em resposta à queda da inflação e ao abrandamento da economia na Zona Euro.
Se por um lado isto é motivo de celebração para os consumidores de crédito à habitação, por outro, é motivo de apreensão no setor bancário, na medida em que isso afetará a margem financeira, principal contribuinte para o aumento significativo do produto bancário nos últimos três anos. Esta redução dificilmente será compensada pelo aumento da margem complementar, pois a opção de aumento das comissões está praticamente esgotada.
Face a este panorama, que se agrava com a estimativa de desaceleração da economia mundial, “os bancos têm de criar almofadas”, como referiu em junho o Governador do Banco de Portugal na Assembleia da República, para “não voltarmos a viver momentos de aflição no sistema bancário”. Para além de poupar, os bancos deverão, assim, procurar diversificar o produto bancário através de novas fontes de receita, resultantes da convergência com a indústria não financeira.
Em Portugal, o exemplo mais tradicional são os marketplaces de bens de consumo, nos quais são disponibilizados grandes eletrodomésticos ou telemóveis, financiados pelo próprio banco. Outra opção comum é a integração de soluções de fintechs, mas a disrupção tecnológica a que temos assistido permite mais ambição.
Como podem então os bancos explorar novas fontes de rentabilidade?
- Marketplaces especializados: como o aluguer ou compra de maquinaria pesada para a construção ou agricultura, em parceria com empresas de aluguer de equipamentos, apoiando o cliente na seleção, financiamento, manutenção e revenda do veículo.
- Modelos de negócio subscription-based: como o aluguer de curta e média duração de automóveis, em parceria com concessionários parceiros através de subscrições mensais, que incluem seguros com assistência em viagem.
- Super Apps: que complementam os serviços financeiros de crédito e aconselhamento, com os serviços não financeiros necessários à compra, aluguer ou venda de casa, nomeadamente eletricidade ou manutenção, em parceria com empresas do setor, ou que possibilitem o pagamento e gestão de obrigações fiscais, como o IMT ou impostos sobre mais-valias.
- Embedded finance: por exemplo, integrar os serviços bancários, como pagamentos, empréstimos e seguros, nos canais de distribuição da indústria de retalho online. Desde modelos simples (plain-vanilla) de financiamento de produtos vendidos na plataforma de e-commerce a modelos mais complexos, alavancados em empréstimos pré-aprovados aos vendors parceiros do e-commerce.
- Banking-as-a-Service: disponibilizar a infraestrutura bancária, incluindo know-how regulatório e capacidade de backoffice, a empresas não financeiras para que estas possam fornecer serviços financeiros.
O ritmo explosivo da tecnologia e a evolução das necessidades e comportamentos dos consumidores origina oportunidades que os bancos deverão aproveitar para obter novas fontes de receita. Estas oportunidades já estão a ser exploradas pelos gigantes tecnológicos, start-ups e empresas não financeiras, que têm vindo a ganhar relevância no panorama financeiro pela disponibilização de ofertas integradas e end-to-end. Para competir neste panorama é fundamental que o setor financeiro priorize esta diversificação. A oportunidade será certamente maior para quem agir de forma mais rápida.