Este ano, a NTT DATA lançou o relatório Technology Foresight 2026, um exercício estratégico que analisa as principais tendências tecnológicas que irão moldar o futuro das organizações e da sociedade nos próximos anos.
Entre essas tendências, destaca-se uma pelo seu impacto transversal: Human Orchestrated Technology ou Tecnologia Orquestrada por Pessoas. A ideia central é simples, mas profundamente transformadora. Estamos a entrar numa nova era da autonomia, em que sistemas inteligentes podem operar e agir de forma rápida e à escala, orientados pela intenção humana. Desta forma, garante‑se que as decisões têm propósito, são transparentes e estão alinhadas com os objectivos mais amplos das organizações e da sociedade.
Isto implica redefinir o papel humano em sistemas cada vez mais autónomos. Quando os sistemas começam a tomar decisões, a recomendar ações ou a executar processos sem intervenção constante, surge uma questão essencial: o que devemos orquestrar e como o devemos fazer? Este é o verdadeiro desafio.
Para o superar, as organizações terão de decidir onde a máquina deve atuar, onde a pessoa deve intervir e como governar esta colaboração. A tecnologia pode detetar padrões, antecipar desvios, personalizar experiências ou negociar em tempo real. No entanto, continua a ser o julgamento humano a definir limites e a ligar cada decisão ao propósito da organização.
Durante anos, falámos de transformação digital como se fosse uma corrida à modernização tecnológica. Digitalizar processos, migrar para a Cloud, automatizar tarefas, integrar canais, melhorar a experiência do cliente ou escalar operações foram — e continuam a ser — passos necessários. Contudo, torna-se cada vez mais evidente que esta etapa, por si só, já não explica a dimensão da mudança que temos pela frente.
A promessa da Human Orchestrated Technology reside precisamente em canalizar esta transformação através de uma nova forma de trabalho, em que as pessoas passam a atuar como maestrinas e maestros de sistemas inteligentes.
Num futuro próximo, veremos a sua aplicação em diferentes camadas.
- A primeira é a das operações autónomas: processos capazes de se ajustar em tempo real, detetar anomalias e corrigir trajetórias antes do impacto chegar ao negócio.
- A segunda é a dos profissionais aumentados, em que cada colaborador trabalhará com agentes especializados que ampliam a sua capacidade de análise, criação e execução.
- A terceira camada envolve produtos e serviços cada vez mais adaptativos, capazes de se ajustar ao comportamento, ao contexto e às necessidades do utilizador.
- Por fim, a transformação mais disruptiva vai surgir quando agentes inteligentes passarem a tomar decisões completas de consumo em nome de uma pessoa ou de uma organização. Nesse momento, as organizações vão deixar de desenhar experiências apenas para pessoas e passar também a desenhá-las para outros sistemas autónomos que atuarão como intermediários de confiança.
Este cenário vai conduzir a uma economia mais programável, em que contratos, pagamentos, permissões e decisões operacionais serão executados com base em regras codificadas. Uma economia mais rápida, sem dúvida, mas também mais exigente, pois quanto maior for a autonomia dos sistemas, mais crítica se torna a qualidade das regras, a transparência dos dados e a responsabilidade de quem concebe estes mecanismos.
Tudo isto tem implicações profundas a nível cultural, organizacional, ético e, naturalmente, de liderança. CIOs, CMOs, COOs e CEOs já não vão poder limitar-se a “patrocinar tecnologia”. Terão de assumir um papel mais ativo como arquitetos de uma autonomia responsável. Caber-lhes-á desenhar a forma como as decisões são distribuídas, como o impacto é medido e como o sistema é governado com um propósito claro, sem perder a direção estratégica.
O que se avizinha é uma mudança de mentalidade e das regras do jogo: organizações capazes de pensar e atuar de forma distribuída, combinando inteligência humana e inteligência artificial. E, neste novo contexto, quanto maior for a autonomia tecnológica, maior será o valor da presença humana — não para controlar cada passo, mas para orquestrar o sistema.